quarta-feira, 8 de junho de 2011

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: SEMENTE DE UM NOVO TEMPO


O Meio Ambiente é um dos seis temas contemporâneos voltados para a cidadania e eleitos como prioridade pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Juntamente com Ética, Orientação Sexual, Pluralidade Cultural, Saúde e Trabalho/ Consumo compõem os chamados Temas Transversais.
Estes temas abordam problemas que afligem os brasileiros, e também aos demais povos do planeta. Por isto, educar para a paz tornou-se imprescindível neste início de milênio. É preciso trabalhar pela globalização da Ética em todas as áreas do conhecimento por meio da Justiça sem violência, do Respeito à diversidade cultural, étnica e ambiental, da Solidariedade e do Diálogo, que são a melhor forma de se resolver pacificamente os conflitos. Estas questões são ainda pouco trabalhadas nas áreas convencionais e os Temas Transversais vêm para preencher esta lacuna do nosso sistema educacional.
Dentre as propostas alternativas para educação participativa, a Filatelia abre um enorme leque de possibilidades pedagógicas para se construir o conhecimento de maneira responsável, divertida e diferente, possi-bilitando aos professores e aos alunos o estudo dos selos postais que são considerados produtos artísticos e culturais de alta qualidade e confiabilidade, de fácil manuseio, capaz de enri-quecer os trabalhos escolares.
Neste informativo filatélico há várias sugestões pedagógicas para você participar do Programa Parâmetros em Ação, com o tema Meio Ambiente na Escola, utilizando-se da Filatelia.
Por envolver saberes complexos, os Temas Transversais não se restringem a uma só área do conhecimento. Exigem uma integração transversal às disciplinas e aos próprios temas transversais. Ao se trabalhar o Meio Ambiente, por exemplo, a sua complexidade nos leva aos conteúdos de: Geografia, Ciências, História, Português, Matemática e aos temas Ética, Saúde e Consumo. Assim, professores de diferentes áreas estarão envolvidos num projeto pedagógico de construção do conhecimento e de formação do aluno por meio da transversalidade.
Sugestão de atividades utilizando-se da Filatelia:
Os alunos podem ser orientados a: 1.organizar um álbum ou cartaz com selos, mostrando a variedade de nossa fauna e flora, trabalhando com a biodi-ver-sidade (de ma-neira genérica ou com um tema específico: frutas, flores, minerais, peixes, pássa-ros ou insetos); 2.am-pliar selos e fazer um que-bra-cabeça; 3.montar um jogo da memória com frutas e flores brasileiras; 4.montar um jogo de dominó com a nossa fauna e suas características; 5.orga-nizar uma exposição de selos de nossa flora, em comemoração ao Dia da Árvore; 6.pesquisar selos que ilustrem músicas ou poemas sobre o meio ambiente como este pequeno trecho de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; /As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.
Os alunos, também, podem traba-lhar aspectos científicos como: 7.mapear a fauna e a flora encontradas nos selos de acordo com o ecossistema ou com a região em que se encontram; 8.trabalhar a classificação científica dos animais e vegetais; 9.ilustrar com selos as músicas e poemas que tratam da biodiversidade; 10.organizar uma cadeia alimentar com os selos disponíveis; 11.dese-nhar uma paisagem numa cartolina envol-vendo um ecossistema terrestre, marinho, aquático ou misto (pode ser: floresta, campo, fundo do mar, caverna, praça, rio ou apenas uma árvore) e ilustrá-la com selos de animais, vegetais e frutos carac-terísticos desta paisagem; 12.convidar um filate-lista para fazer uma palestra e expor sua coleção de selos, dando destaque aos do meio ambiente; 13.pesquisar no site dos correios www.correios.com.br os selos relativos ao meio ambi-ente, ou pro-curar as agên-cias filatélicas para conta-tos e sugestões de como organizar uma ex-po-sição de selos.

A NATUREZA NAS MÃOS DO CRIADOR

O meio ambiente em equilíbrio: os ecossistemas e sua biodiversidade Meio Ambiente não é mais puramente sinônimo de natureza ou de recursos naturais. Atualmente, entende-se que há um complexo de interde-pendências e interações entre a natureza e a sociedade, sob o enfoque da sustentabilidade. Em cada ecossistema, esta interação e inter-de-pendência se faz de maneira diferente dos outros espaços. No caso do Brasil, sete grandes ecossistemas refletem a nossa biodiversidade. Veja no mapa como os selos postais podem ser utilizados para se trabalhar de maneira transversal.
Ecossistemas do Brasil e sua Biodiversidade
CAATINGA 

CERRADO 
PANTANAL 
AMAZÔNIA 
MATA ATLÂNTICA 
CAMPOS 
ZONA COSTEIRA

A NATUREZA EM NOSSAS MÃOS

A caminho da sustentabilidade

O processo de destruição da natureza levou à conscientização de que a natureza é finita, e os movimentos ambientalistas começaram a surgir. Na década de 70, encontros entre nações, governos e instituições foram realizados e o consenso foi de que a estratégia para modificar o processo de destruição da natureza encontra-se na Educação. É preciso promover o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente, evitar o desperdício e incentivar o efetivo exercício da cidadania de maneira responsável. É fundamental criar-se oportunidades no dia-a-dia para que os alunos possam vivenciar situações reais para aprender a dialogar, a ser justo e solidário, a ter respeito consigo mesmo, com o outro e com a natureza, agindo com sobriedade. É preciso compreender que quem desrespeita a natureza, desrespeita os que dela dependem. É preciso que façamos deste mundo um mundo melhor.
A Filatelia traz rica informação documental sobre atitudes positivas para com o meio ambiente como: as unidades de conservação (parques nacionais, reservas biológicas, estações e santuários ecológicos); a Agenda 21 promovendo a susten-tabilidade; as fontes alternativas de energia; as regiões de ecoturismo; os esportes radicais; as tecnologias limpas; as ONGs ambientalistas (organizações não governamentais): o WWF- Fundo Mundial para a Natureza, o Greenpeace, o SOS Mata Atlântica); os órgãos governamentais; as campanhas de racionamento de energia; as datas comemorativas nacionais e internacionais para reflexões como: Dia Mundial da Água (22/março), Dia Mundial do Meio Ambiente (05/junho), Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca (17/junho), Dia Internacional de Preservação da Camada de Ozônio (16/setembro) e Dia Internacional da Biodiversidade (29/dezembro).
Sugestão de atividades utilizando-se da Filatelia: Levar os alunos a: 1.coletar informações dos selos sobre as atitudes positivas, mapeá-las e/ou classificá-las; 2.criar ambientes em cartolina, onde haja equilíbrio entre ocupação humana e a ecologia (jardins, belas praças e avenidas, novas formas de saneamento básico, soluções para o lixo, casas ecológicas, ruas arborizadas e passeios ecológicos) ilustrando-os com selos da nossa fauna e flora; 3.fazer intercâmbio de idéias ecológicas com alunos de outras escolas ou de outras cidades, por meio dos correios ou da Internet; 4.organizar exposição filatélica sobre as atitudes preser-va-cionistas, obser-vando algumas datas de caráter mundial. Maria Zilá Teixeira de Matos, para o Informativo Filatélico, uma publicação do Departamento de Filatelia da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

MARTHA MEDEIROS

FONTE: portal do são francisco

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O ensino médio e seus caminhos


Um dos principais dilemas da educação contemporânea é aquele que gira em torno da permanência dos alunos do ciclo médio nos bancos escolares. Atraídos pelo número de estímulos e pela velocidade da sociedade, a escola lhes parece enfadonha. No entanto, muito do que lhes parece fora de propósito nessa fase - experiências, relações, conhecimentos - só irá adquirir sentido ao longo do tempo. Muitas vezes acaba por não fazer, por diversos motivos, entre eles o abandono da escola. 

Todo esse clima de desinteresse dos adolescentes pela vida escolar tem gerado muitas reflexões mundo afora sobre os possíveis caminhos de fazer com que o ensino médio seja vivido e percebido como significativo. Nessa perspectiva, o desafio dos sistemas de ensino nos últimos anos envolve a capacidade de organizar um programa curricular que consiga, ao mesmo tempo, formar os jovens para continuar os estudos no ensino superior e prepará-los para o mercado de trabalho. Ou seja, fazer com que se escolarizem o mais possível, o que muitas vezes obscurece outros sentidos da educação. 

No Brasil, o cenário segue roteiro parecido. As novas proposições do governo federal para o ensino médio têm o objetivo de elevar o índice de conclusão do ensino médio regular para o patamar de países mais desenvolvidos. "Para esses países, a permanência do aluno em sala de aula nessa etapa deixou de ser um desafio há alguns anos. Hoje existe uma forte pressão socioeconômica, e muitos daqueles que saem não têm a menor chance profissional na vida", avalia Cândido Gomes, consultor da Unesco e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB-DF).

Evidência disso é o índice de jovens de 18 a 24 anos que completaram o segundo ciclo do 2º grau, que equivale ao nosso ensino médio. Conforme o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), a média de conclusão nessa faixa etária entre os 27 membros é de 79%. Nos Estados Unidos, chega a 89%. No Brasil, conforme a Síntese dos Indicadores Sociais divulgada pelo IBGE em 2010, somente 37% dos jovens de 18 a 24 anos já completaram a etapa. Segundo pesquisa recente divulgada pelo Instituto Unibanco junto à rede estadual paulista, de cada 100 alunos que terminam o ensino fundamental com a idade correta, 83 vão para o ensino médio. Destes, apenas 47 terminam o médio em três anos. Considerando a evasão do início do fundamental ao final do médio, de cada 100 estudantes que entram saem 23 no período correto.

Para aumentar esses índices de conclusão, o MEC aposta na ampliação da educação profissional, ainda pouco expressiva no Brasil. No âmbito do ensino secundário, ela responde por apenas 14% das matrículas, contra 77% da Áustria, 58% da Alemanha, 44% da França, 42% da China e 37% do Chile.

Realidade brasileira
Para melhorar o cenário, o governo federal aposta, desde 2004, em propostas que apontem para um programa curricular mais flexível. Uma das principais medidas foi a possibilidade de integrar ensino regular e a educação profissional, sacramentada pelo decreto 5.154/04. Dessa maneira, instituições privadas e públicas oferecem as aulas regulares em um turno e cursos que preparem para o mercado de trabalho em outro, sob uma mesma matrícula.

Esse é o caso de Matheus Escobar, aluno do 2º ano da Escola Técnica Estadual (Etec) Jorge Street, em São Paulo. Durante a tarde, ele cursa as disciplinas do ensino formal tradicional; de manhã, tem aulas de desenho técnico mecânico, automação industrial e eletrônica digital, entre outras.

Aos 16 anos, Matheus resolveu fazer o ensino médio integrado porque, na sua opinião, esse caminho lhe dará mais chances de seguir os estudos no ensino superior. "Quero ir o mais rápido possível para a universidade. Se tiver de ser uma particular, com a mecatrônica tenho chances de arrumar um bom trabalho para conseguir pagá-la", diz, referindo-se à formação técnica que está cursando, umas das 83 oferecidas no ensino técnico paulista.

Os números comprovam a tese do estudante. Uma pesquisa conduzida pelo economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada em 2010, apontou que a chance de arrumar emprego para jovens que cursam alguma modalidade de educação profissional é 48% maior. A possibilidade de carteira assinada também cresce 38%. Para chegar a esses índices a pesquisa relacionou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007 e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) dos oito anos anteriores.

Além da educação integrada, o decreto 5.154/04 traz outras duas formas de articulação entre o ensino médio e a educação profissional: a concomitante, para quem já está cursando o ensino médio regular, com duas matrículas por aluno e oferta de disciplinas na mesma escola ou em local distinto; a subsequente, oferecida para aqueles que já terminaram o 2º grau.

Novas ideias
Para aumentar o índice de matrículas no ensino técnico, o governo federal aposta também no Programa Nacional de  Acesso à Escola Técnica (Pronatec). Anunciado em fevereiro deste ano pela presidente Dilma Rousseff, ele vai financiar cursos profissionalizantes no nível médio em instituições particulares para pessoas de baixa renda. Alunos que já se formaram no segundo grau também poderão participar, através do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). 

Para o titular da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), Eliezer Pacheco, a oportunidade irá contribuir não apenas para elevar a taxa de jovens na área técnica mas também motivá-los a concluir o ensino médio. "O programa é mais uma alternativa importante para responder às expectativas dessa população", acrescenta o secretário. Quando esta edição foi fechada, em meados de abril, o plano aguardava alguns estudos finais para ser lançado pela presidência da República. A aposta na educação profissional se consolidaria através da ofertas de cursos também na educação não formal e no ensino superior (tecnólogos), além do médio. 

Outro programa para a área, em vigor desde 2009, é o Escola Técnica Aberta do Brasil (E-Tec Brasil), que ministra educação a distância e envolve os segmentos concomitante e subsequente. Apenas instituições públicas federais, estaduais e municipais que já oferecem o modelo presencial podem abrir núcleos.

O E-Tec Brasil é direcionado para pessoas que moram em cidades do interior e periferias de áreas metropolitanas. Eliezer Pacheco explica que os cursos estão concentrados na área de serviços, mas que há convênios com institutos federais para as aulas laboratoriais. "Também estamos adquirindo caminhões-laboratórios, que irão aos lugares mais distantes", completa. Hoje, o programa tem 291 núcleos espalhados em 20 estados, com 28 mil alunos matriculados. E há ainda o Brasil Profissionalizado. Até o fim de 2011 ele irá repassar cerca de R$ 900 milhões para os estados expandirem e modernizarem as redes públicas de ensino médio integradas à educação profissional. 

Novo modelo
Outra proposta implantada em caráter experimental é o Ensino Médio Inovador (EMI). Lançado no ano passado, tem entre as suas principais ações o aumento da carga horária letiva anual de 800 para mil horas e a destinação de 20% dessa carga à oferta, pela escola ou por parceiros, de disciplinas eletivas. 

Nesse modelo, o currículo passa a valorizar a interdisciplinaridade e deve ser organizado em torno de quatro eixos: trabalho, tecnologia, ciência e cultura. Também é previsto o incentivo à contratação de professores com dedicação exclusiva e o estímulo às atividades de produção artística e de aulas teórico-práticas em laboratórios.

O EMI funciona atualmente em escolas de 18 estados que resolveram aderir a ele e  recebem apoio técnico e financeiro da União. Segundo dados da Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC), os recursos totais somam R$ 33 milhões e atingem 296 mil estudantes em 357 escolas.

Atualmente a SEB reformula o programa e uma nova versão está prevista para maio. Uma das medidas sendo planejadas é articulá-lo com outro programa do ministério, o Mais Educação, que oferece suporte financeiro diretamente às escolas para passarem a ofertar atividades optativas. Elas são agrupadas em macrocampos como esporte e lazer, cultura e artes, cultura digital, educomunicação e educação econômica. 

Na opinião de Maria Sylvia Simões, professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, as ideias do Ensino Médio Inovador representam um avanço na educação brasileira. Por outro lado, lembra a professora, a consolidação do projeto no país inteiro esbarra em um ponto bastante complicado: o MEC e os governos estaduais precisam estar em sintonia. Mas alguns estados já sinalizaram que não deverão aderir. "Se não há vontade política de quem tem o poder de decisão, fica difícil implantar", comenta Maria Sylvia Simões. Outro problema é o custo do modelo, bem superior ao do ensino médio tradicional.
    
O $ da questão
Esse descompasso entre os entes federativos também está refletido na educação profissional. De acordo com o Censo Escolar 2010, nas escolas da rede federal, o ensino técnico integrado representa a maior parte das matrículas da área, com 46% (76 mil alunos entre 165 mil). Agora, considerando toda a educação profissional, ele cai para último, com 18,9% (215 mil em um universo de 1,14 milhão).

Entretanto, além de questões políticas, as propostas do governo federal para o ensino médio também enfrentam dificuldades para emplacar nacionalmente por causa de seu custo, difícil de ser assumido pelos estados. Álvaro Chrispino, professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ), explica que, no caso do ensino integrado, o custo de laboratórios e equipamentos é alto e essa forma de articulação também exige capacitar os docentes das duas áreas. "A maioria dos estados só consegue ofertar em quantidade se houver contrapartida da federação."

Para que se tenha ideia, ao mesmo tempo que o valor mínimo previsto pelo Fundeb 2011 para o ensino médio é de R$ 2.066,46, esse montante varia muito entre diferentes unidades da federação. No Rio Grande do Sul, está próximo do mínimo (R$ 2.039,22); no Amapá, é de R$ 2.920,89; em São Paulo, R$ 3.168,45; em Roraima, R$ 3.498,52. 

A contratação de docentes é outra questão. Maria Sylvia Simões afirma que o sucesso do Ensino Médio Inovador e do ensino integrado significará crescimento da demanda. Assim, as secretarias de Educação precisarão abrir novos concursos e aumentar a carga horária de quem já é da rede. "Só que aí tem de ver quem consegue financiar isso e, ao mesmo tempo, oferecer um salário decente", pontua.

Segundo levantamento feito pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o salário médio nacional de admissão de um docente do 2º grau é de R$ 1.078. Em comparação com outros países, o Brasil está bem atrás nesse quesito. Na França, um professor do ensino médio em início de carreira ganha cerca de R$ 4 mil. Nos Estados Unidos o valor médio chega a R$ 5,5 mil.

Jaqueline Moll, diretora de Concepções e Orientações Curriculares para a Educação Básica da SEB, afirma que os repasses do governo federal às redes estaduais devem aumentar, porém as propostas têm o objetivo de proporcionar condições iniciais para desenvolver experiências que possam ser ampliadas dentro do sistema de ensino. "São projetos de médio e longo prazo. Nesse sentido, os estados têm como promover mudanças graduais de acordo com suas possibilidades", avalia a diretora.

Quem se beneficia
Outra discrepância que as propostas do MEC não solucionam é a qualidade das instituições e redes em um sistema que privilegia o mérito do aluno. Como mostra o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) observado em 2009, a média do segundo grau nas redes estaduais brasileiras é 3,4, mas a diferença entre os entes pode chegar a mais de um ponto.

O Paraná tem a melhor pontuação, com 3,9, seguido por Rondônia e Santa Catarina, empatados com 3,7. Entre os piores, Rondônia apresenta a nota mais baixa, 2,7. O estado é acompanhado de perto por Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Alagoas, que obtiveram 2,8. A escala do Ideb vai de 0 a 10.

As notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) também são evidência do tamanho da disparidade. Das 20 escolas públicas mais bem colocadas em 2009, 13 são do Sudeste, quatro estão no Nordeste, duas no Sul, uma no Centro-Oeste e nenhuma na região Norte. Detalhe importante: essas 20 instituições com as maiores notas fazem testes seletivos de admissão, os vestibulinhos. A melhor da rede pública no ranking do Enem sem esse tipo de processo ocupou a 729ª colocação. 

Álvaro Chrispino, docente do Cefet/RJ, diz que, se não houver igualdade de condições entre as escolas, as vagas daquelas que tiverem sucesso com a implantação dos projetos do MEC serão cada vez mais concorridas. Com o tempo, elas podem acabar utilizando mecanismos de seleção.

Essa tendência decorreria de uma precipitação do MEC, que elaborou boas ideias para todo o país sem levar em conta as desigualdades históricas. "Se a qualidade do sistema de uma rede se mantém desnivelada, as propostas para todo o ensino médio continuam a surtir efeito apenas em uma pequena parcela de jovens", conclui ele. Ou seja, a educação, ao contrário dos discursos públicos, continuaria a não se efetivar como um fator de redução das desigualdades sociais, ou o faria em ritmo muito menor que o necessário ao equilíbrio social do país.  


terça-feira, 12 de abril de 2011

Achado para não ser esquecido


No dia 1º de maio de 1823, a escritora inglesa Maria Graham (1785-1842), em uma de suas viagens ao Brasil, escreveu em seu diário:
“Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente.
Em alguns lugares, as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se. Em uma casa, as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debruçava-se sobre a meia porta e olhava a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos.”

Desde 1770, quando o marquês do Lavradio ordenou a mudança do mercado de escravos das proximidades do Paço (hoje, Praça XV) para a rua do Valongo (atual rua Camerino), a região que hoje compreende os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo passou a abrigar, além do próprio mercado, um sem número de trapiches e casas de negociantes, onde os recém-chegados ficariam expostos à espera de seus futuros senhores.Assim como tantos outros viajantes que estiveram no Rio de Janeiro na primeira metade do século 19, Maria Graham estava chocada com o que via, mas a cena não era nenhuma novidade para os habitantes da cidade.

Desses africanos, muitos eram crianças, capturadas quando o comércio de africanos já estava nos estertores: proibido no Brasil desde 1831 – ainda que essa interdição tenha sido largamente desobedecida – e condenado pela Inglaterra desde o início do século 19.
Os traficantes perceberam que seu negócio estava com os dias contados e, por isso, traziam quem conseguisse encontrar pela frente. Essas crianças muitas vezes nem resistiam às agruras da viagem e faleciam ao chegar ao Rio de Janeiro. 

Costurando a história


Lembro disso por conta da recente descoberta das estruturas do cais do Valongo – e também do cais da Imperatriz, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny (1776-1850) em 1843 para receber Teresa Cristina (1822-1889), que chegava ao Brasil para desposar D. Pedro II, imperador do Brasil – durante as obras de reforma da zona portuária do Rio de Janeiro.
Nas imediações do Valongo já havia sido encontrado o cemitério de pretos novos, originalmente um pântano onde eram lançados os corpos daqueles que não haviam resistido à viagem e atualmente um sítio arqueológico, localizado na rua Pedro Ernesto – que também já foi chamada de rua da Harmonia, caminho da Gamboa e rua do Cemitério.
Consta que o cheiro na região depois das chuvas era tão horrível que o intendente geral da polícia, Paulo Fernandes Viana, em 1815, chegou a mandar um ofício ao juíz do crime do bairro, solicitando que a área fosse aterrada e que os negociantes que lançassem cadáveres ali fossem multados.

Povoado e frequentado 

A importância do achado não é pequena. Afinal, de fins do século 18 até 1843, data de sua desativação como local de desembarque de escravos, passaram pelo Valongo nada menos do que 897.748 africanos escravizados, segundo dados do projeto The Transatlantic Slave Trade Database (O Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, em português), que reúne informações sobre todas as viagens da África para as Américas realizadas por navios negreiros entre 1514 e 1866. 
Junto com alguns outros portos na Bahia e em Pernambuco, o Valongo foi a porta de entrada para os últimos africanos escravizados que entraram no país. Em seu entorno, toda uma estrutura de organização do comércio escravista se desenvolveu.
A peça-mestra dessa estrutura era justamente os “homens de Valongo” – não por acaso, a forma como eram denominados os traficantes –, mas dela também participavam comissários da alfândega, capitães dos navios, tropeiros, ciganos, libertos e até ladrões. Não é exagero afirmar que parte substancial da sociedade carioca contemporânea passou por ali.
Depois da transferência do mercado de escravos para o Valongo, a área quase rural, distante dos olhares curiosos dos viajantes estrangeiros, adensou-se com a construção de novos trapiches, armazéns, mercados, casas de negociantes e pequenas lojas.
São justamente as ruínas desse entorno – além de objetos pertencentes aos escravos, como joias e amuletos – que vêm sendo encontradas por historiadores e arqueólogos da prefeitura da cidade, responsável pelas escavações.

Este, ao expor uma das faces mais cruéis da escravidão brasileira, servirá para mostrar que a cultura negra carioca, tão importante para a identidade nacional brasileira, tem origem em um episódio terrível. Disso, ninguém mais vai poder esquecer. O plano da prefeitura é transformar o lugar em um memorial (veja o vídeo do projeto no sitede O Globo). Caso se torne realidade, a iniciativa é mais do que louvável. Afinal, memoriais servem para não deixar esquecer.